domingo, 17 de janeiro de 2010

Tourist Information 15 - Parque Nacional Serra da Capivara

Os números por si só são impressionantes: são mais de 1.000 sítios arqueológicos - o maior conjunto do planeta - reunidos numa área da 130.000 hectares, onde estão localizadas mais de 40.000 pinturas datas de vários milhares de anos, além de vestígios da existência do homem primitivo que remontam a cerca de 100.000 anos.

Esses vestígios serviram para reformular antigas teses sobre a origem do homem americano, derrubando hipóteses até então estabelecidas sobre fluxos migratórios vindos de outras partes do mundo. Não bastasse tudo isso, o parque abriga uma flora, uma fauna e uma formação geológica riquíssima e extremamente interessante, em meio a cenários cinematográficos. Criado em 1979, o Parque Nacional Serra da Capivara foi tombado como patrimônio cultural da humanidade em 1991 pela UNESCO.

Com a maior parte da sua área localizada no munícipio de Coronel José Dias (PI), é o munícipio de São Raimundo Nonato (PI), no entanto, que serve como base para aqueles que desejam visitar o parque. Se você visualizar um triângulo invertido, a cidade de São Raimundo Nonato está localizada no vértice inferior. As arestas da esquerda e da direita correspondem, respectivamente, ao traçado das rodovias PI-140 e BR-020, que servem de acesso ao parque, que ocupa a área interna do triângulo.

Para chegar lá, portanto, deve-se tomar uma dessas duas rodovias, ao longo das quais estão situadas as várias guaritas que dão acesso ao parque. A entrada principal, onde estão as principais e mais conhecidas atrações, fica na BR-020, distante cerca de 21Km de São Raimundo Nonato. Essa estrada está em excelentes condições de tráfego e tem, como destino final, a cidade de Teresina, cerca de 500Km adiante. Depois desse trecho de asfalto, há uma placa sinalizando a entrada do parque, e a partir daí são outros 7Km em estrada de terra até a guarita principal. Lá o visitante deve se identificar, preencher um formulário isentando o parque de qualquer responsabilidade sobre eventuais acidentes e pagar uma taxa de R$3,00 que vale para o dia inteiro de visitação, em qualquer lugar do parque. Vale a pena notar que o acesso é permitido apenas para visitantes acompanhados de guia local, que podem ser contactados nas recepções das pousadas. O guia, por sua vez, cobra R$60,00 por dia e te leva para onde você quiser dentro do parque.Se você não tiver um carro, terá que pagar outros R$130,00/R$200,00 por dia (dependendo do trajeto) por um táxi que o levará até o parque, e depois para fazer o percurso lá por dentro. Então, se possível, o melhor é ir de carro mesmo.

Uma vez dentro dos limites do parque, a visita prossegue através de pequenas estradas de terra que cruzam o mesmo em direção aos principais pontos de visitação. Tudo é muito bem sinalizado através de umas plaquinhas amarelas em forma de seta, com os nomes dos locais que podem ser acessados. Além das guaritas, bem construídas e com boa infraestrutura para receber o visitante, existem centros de apoio com informações sobre o parque e alguns dos itens encontrados nele (como é o caso das garras dos tigres-dente-de-sabre).

Mas afinal, o que há para ver dentro do parque? Em primeiro lugar existem as chamadas "tocas", espécie de caverna a céu aberto, um tipo de abrigo na encosta de uma rocha imensa, protegida por um teto de pedra, e que servia de moradia não apenas para os homens primitivos mas também para famílias inteiras em tempos mais recentes, antes da fundação do parque. Nas paredes dessas rochas é que estão as famosas inscrições, de vários gêneros e com vários temas, e que nos contam um pouco da vida e dos hábitos do homem pré-histórico da região (há desde ilustrações de conflitos entre grupos de habitantes, imagens de caça, de animais e de pessoas, até cenas de sexo, inclusive coletivo, rituais diversos e, por incrível que pareça, uma cruz com pelo menos 6.000 anos de idade).

Além disso, há uma flora extremamente variada, formada pela vegetação típica da caatinga e também do cerrado, mas cuja predominância é de uma floresta tropical úmida, sem dúvida uma descoberta surpreendente. Árvores gigantescas convivem com arbustos rasteiros, o ambiente úmido fica ao lado do chão seco, a mata alta e fechada se alterna com a baixa, seca e aberta, cipós atravessam o caminho, lindas flores aparecem repentinamente no caminho, assim como diversas espécies de frutas, e você não se cansa de ver tanta beleza e variedade.

A visitação é feita, geralmente, indo-se de carro até um ponto de acesso próximo do local de interesse dentro do parque. Estratégicamente posicionados, esses pontos permitem a visitação dos locais sem a necessidade de longas ou difíceis caminhadas adicionais. Por isso, o parque não é feito apenas para os aventureiros, mas também para aqueles que querem apreciar a sua beleza e os seus atrativos sem dispender maiores esforços. Mas para os aventureiros não faltam opções. Existem várias trilhas, com graus variados de dificuldade, diversos tipos de terreno, subidas em encostas e tudo mais que confere prazer àqueles que tem o gene do Indiana Jones nos cromossomos.

A fauna também é muito rica e variada. Durante a visitação é comum se deparar com váras espécies de animais como, por exemplo: macacos-prego em cima das árvores, raposas andando pelas trilhas, beija-flores nos arbustos, uma espécie muito curiosa de lagartixa com as costas vermelhas (apenas a fêmea, e apenas naquele região, não há nada igual em nenhuma outra parte do mundo), sapos na beira da água, aranhas-caranguejeiras (do tamanho de uma mão aberta) nas encostas das rochas, papagaios já acostumados com a presença do homem, mocós (espécie de roedor que a ameça as pinturas rupestres com os seus dejetos deixados nas tocas), veados assustados saltando da trilha para a mata, furões cruzando os caminhos em alta velocidade, saguis que não recusam bananas, lagartos gigantes (teiús) indo de um lado para o outro, gaviões fazendo os seus vôos rasantes, lindas iguanas verdes no pé das árvores e até picapaus de cabeça vermelha em pleno serviço nos troncos das árvores. Consta que existem ainda cerca de 60 onças no perímetro do parque, mas essas não são avistadas tão facilmente.

Um espetáculo particularmente interessante é o ritual de recolhimento das super-andorinhas no final da tarde. Do alto de um desfiladeiro de grande beleza, dezenas dessas andorinhas fazem as suas acrobacias no céu durante o por do sol. E, enquanto o show acontece, pequenos grupos delas se destacam do grupo maior e fazem vôos rasantes em direção ao solo, onde farão o pernoite. O curioso é que esses vôos tem o som dos aviões de caça, o que torna a experiência de quem assiste ainda mais impressionante.

Em outros tempos havia ali uma fauna diferente, chamada pelos guias de "megafauna", e formada por animais que hoje habitam apenas as telas do cinema e a nossa imaginação: preguiças-gigantes de 8 metros e 5 toneladas, mastodontes e tigres-dente-de-sabre são alguns desses antigos habitantes que possuem partes expostas em museus, laboratórios e centros de visitação.

Para além das pinturas, da flora e da fauna, as formações geológicas do parque são uma atração à parte. Entre canyons, serras, chapadas, planícies, desfiladeiros, tocas e caldeirões, as opções são inúmeras e sempre surpreendentes. As visões panorâmicas são de uma beleza indescritível. Tudo isso requer, naturalmente, um pouco de preparo físico, pois são caminhadas, subidas e descidas, obstáculos variados, porém com resultado sempre altamente compensador. Em certos trechos o terreno é tão íngreme que não permite a escalada, e por isso foram instaladas escadas de marinheiro de metal para facilitar a passagem.

Para quem quer um pouco de emoção, não se deve deixar de subir (ou descer) os 16m de escada vertical na região da Pedra Furada, ao término do qual se obtém uma linda visão da região conhecida como Vale do Baixão da Pedra Furada, que aliás pode ainda ser avistada de forma panorâmica de outros três pontos diferentes. Mas para quem quiser emoção mais forte, há uma outra escada de 76m de altura que leva ao topo de um morro onde a vista é privilegiada e a sensação de estar mais perto do céu e dos criadores da natureza é marcante.

As tocas e os caldeirões (como são chamados os locais de acúmulo de água, e que são usados pelos animais para se refrescar em tempo de seca), são atrações à parte. Apesar de ter visto lindas tocas, a que mais me impressionou foi mesmo a mais famosa, a Toca do Boqueirão da Pedra Furada. Além da quantidade de pinturas (são mais de 1.000), o lugar se impõe pelas suas dimensões e proporções e impressiona de forma imediata. Sensação idêntica eu tive em outros dois caldeirões, que para mim não merecem outra denominação senão a de templos sagrados da natureza.

Se o Vale do Baixão da Pedra Furada é o local que atrai mais visitantes, existem pelo menos três outros circuitos que não devem deixar de ser visitados. São eles a Serra Branca (aberta para visitação do público há apenas 2 anos), a Serra Vermelha e o Desfiladeiro. Os dois primeiros são acessíveis pela PI-140, uma estrada bastante mal cuidada e que lembra, em certos trechos, as BR-235 e BR-324, que interligam Petrolina à São Raimundo Nonato. O terceiro é acessível pela própria BR-020, porém num ponto mais adiante da estrada.

Quando a visitação ao parque for feita pelos acessos da BR-020 (Pedra Furada e Desfiladeiro), deve-se preferir almoçar na Cerâmica Serra da Capivara, e não no Restaurante Trilha da Capivara. Lá a comida é mais variada e bem preparada. Na cerâmica (com 16 anos de atividade) são produzidas peças variadas, com reproduções das pinturas encontradas no parque. Ali é possível visitar a fábrica, adquirir peças numa pequena loja que funciona ao lado da fábrica e conversar com o Seu Nivaldo, lendária figura da região, pioneiro na localização das tocas do parque e primeiro guia do mesmo. Do alto dos seus 77 anos, o Seu Nilvado hoje trabalha produzindo peças de cerâmica (foi o primeiro funcionário da fábrica) e contando histórias da sua época de mateiro para os visitantes. Quando a visitação do parque acontecer pelos acessos da PI-140, a opção para almoço é a Churrascaria do Almeidão, local que fica na beira da estrada e que fica no meio do caminho entre o acesso para a Serra Branca e o acesso para a Serra Vermelha.

Com tantas atrações, o parque recebe apenas 15.000 visitantes por ano, cerca de 40 por dia. Muito pouco se comparado ao potencial turístico do mesmo, mas compreensível quando se leva em consideração as dificuldades de acesso (veja comentários em outra postagem). De qualquer forma, espera-se que, com a inauguração do aeroporto internacional de São Raimundo Nonato, essa situação mude e o parque entre definitivamente no roteiro do ecoturismo nacional.

Nada do que se vê, no entanto, seja no Parque Nacional Serra da Capivara, seja no Museu do Homem Americano, é obra do acaso. Ao contrário, é obra de pessoas que se dedicaram de forma incansável durante décadas com o objetivo de realizar um sonho. E, dessas pessoas, a mais importante é, sem dúvida, a Dra. Niède Guidon, pesquisadora francesa que, há muito tempo, foi contactada por um então prefeito de São Raimundo Nonato em São Paulo, que julgou oportuno expor as pinturas encontradas na região para alguém ligado à academia. O resultado foi a descoberta de um patrimônio, a sua delimitação, documentação e o início de um processo de investigação e turismo que ainda está muito longe de se esgotar, e que não para de surpreender aqueles que, como eu, tem a oportunidade de desfrutar de tão belo lugar e tão competente trabalho.

Dessa vez foram apenas quatro dias no parque e outro no museu, todos muito bem aproveitados. Mas quem quiser ficar por lá por uns 15 ou 30 dias não vai precisar voltar no mesmo local duas vezes e vai ter, com certeza, muito mais para contar na volta. Com relação às fotos, foram mais de 3.000 registros, mas ainda vai levar um bom tempo até todo esse material ser editado, tratado e publicado.

Não importa se como turista, cidadão do mundo, fotógrafo ou simplesmente um ser vivo, eu me senti um privilegiado por poder estar num local tão lindo e sagrado, e que expõe de maneira escancarada até que ponto pode chegar a grandeza disso que chamamos de natureza.

7 comentários:

Robson disse...

Pô Marcão, que inveja, pelo pouco que conheci do Parque, sei que tudo que você falou é a pura verdade, depois desta descrição, vou ter que ir novamente para lá.
É preciso mencionar o nome do prefeito que procurou a Drª Nedia, ele é tão importante quanto ela, principalmente se pensarmos que os políticos de hoje em dia, não dão a mínima para isso, bastante louvável a atitude dele.
Abraços

Robson

Marcus disse...

Tem toda razão, vou ver se descubro que foi esse prefeito, a quem a humanidade deve agradecimentos...
Abraço.

Carmem Masutti disse...

Querido Marcos, belíssima descrição!
Dos lugares que visitei, pude relembrar facilmente através de seu excelente texto.
A semelhança de Robson, quero voltar ao Parque. Que tal uma expedição conjunta? Marcos, meu marido, ainda não conhece.
Forte abraço!!!

Irene disse...

Marcos . Estou de ferias do trabalho aqui no interior de SP. Suas dicas foram bem legais para que eu decidisse pela SErra da Capivara.Tenho parentes em Petrolina e vai ficar mais fácil . Um abraço Irene

Marcus disse...

Olá Irene,
Obrigado pela visita! Fico feliz em ter contribuído para fazer com que você conheça esse lugar tão especial. Bom proveito por lá e deixe as suas impressões aqui na volta, se possível.
Abraço,
Marcus.

Andréa disse...

Marcus,

Estou pensndo em visitar o Parque no próximo carnaval. Fevereiro é uma boa época ou irei ter o meu passeio estragado pelas chuvas?

Obrigada.
Andréa.

Marcus Ramos disse...

Andréa,
Não sei responder com exatidão. Eu estive lá em janeiro, e apesar de o tempo estar um pouco instável, isso não foi suficiente para atrapalhar os passeios. Creio que o ideal seria consultar alguém da região mesmo. Boa viagem e boas férias!