quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Fotos do Parque Nacional Serra da Capivara

Até que não demorou tanto assim. Resolvi dar uma passada rápida de olhos no material que eu trouxe de lá e acabei selecionando uma amostra pequena porém representativa. Para conferir, é só clicar aqui ou então na imagem acima para vê-la ampliada. A edição completa, no entanto, ainda vai demorar bastante para ser publicada.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Canto do Calado

Quem gosta de música e ainda não conhece o blog do meu amigo e irmão Robson Calado, não sabe o que está perdendo. Além de repassar preciosidades da sua vasta coleção de vinis e CDs, refletindo não apenas sobre a história e o mérito dos artistas e suas obras, assim como o contexto que as mesmas foram lançadas no mercado, com pitadas sobre a sua (que em parte também foi minha) história de vida pessoal, o Robson também registra e analisa os principais eventos artísticos e culturais que acontecem na cidade do Recife, especialmente na área da música. O Canto do Calado é, portanto, o espaço para quem está antenado na música do mundo e na vida musical do Recife, um dos principais centros produtores do país nos dias de hoje.

Para conhecer o blog, é só clicar aqui. Eu, que sou leitor assíduo do mesmo, e que por esse motivo estou sempre aprendendo de algo interessante e novo com o meu amigo que tem tanto a compartilhar, também fiz algumas participações especiais por lá, comentando um filme relativamente recente e outro já mais antigo. Para conferir é só clicar, respectivamente, aqui e/ou aqui.

Tourist Information 15 - Parque Nacional Serra da Capivara

Os números por si só são impressionantes: são mais de 1.000 sítios arqueológicos - o maior conjunto do planeta - reunidos numa área da 130.000 hectares, onde estão localizadas mais de 40.000 pinturas datas de vários milhares de anos, além de vestígios da existência do homem primitivo que remontam a cerca de 100.000 anos.

Esses vestígios serviram para reformular antigas teses sobre a origem do homem americano, derrubando hipóteses até então estabelecidas sobre fluxos migratórios vindos de outras partes do mundo. Não bastasse tudo isso, o parque abriga uma flora, uma fauna e uma formação geológica riquíssima e extremamente interessante, em meio a cenários cinematográficos. Criado em 1979, o Parque Nacional Serra da Capivara foi tombado como patrimônio cultural da humanidade em 1991 pela UNESCO.

Com a maior parte da sua área localizada no munícipio de Coronel José Dias (PI), é o munícipio de São Raimundo Nonato (PI), no entanto, que serve como base para aqueles que desejam visitar o parque. Se você visualizar um triângulo invertido, a cidade de São Raimundo Nonato está localizada no vértice inferior. As arestas da esquerda e da direita correspondem, respectivamente, ao traçado das rodovias PI-140 e BR-020, que servem de acesso ao parque, que ocupa a área interna do triângulo.

Para chegar lá, portanto, deve-se tomar uma dessas duas rodovias, ao longo das quais estão situadas as várias guaritas que dão acesso ao parque. A entrada principal, onde estão as principais e mais conhecidas atrações, fica na BR-020, distante cerca de 21Km de São Raimundo Nonato. Essa estrada está em excelentes condições de tráfego e tem, como destino final, a cidade de Teresina, cerca de 500Km adiante. Depois desse trecho de asfalto, há uma placa sinalizando a entrada do parque, e a partir daí são outros 7Km em estrada de terra até a guarita principal. Lá o visitante deve se identificar, preencher um formulário isentando o parque de qualquer responsabilidade sobre eventuais acidentes e pagar uma taxa de R$3,00 que vale para o dia inteiro de visitação, em qualquer lugar do parque. Vale a pena notar que o acesso é permitido apenas para visitantes acompanhados de guia local, que podem ser contactados nas recepções das pousadas. O guia, por sua vez, cobra R$60,00 por dia e te leva para onde você quiser dentro do parque.Se você não tiver um carro, terá que pagar outros R$130,00/R$200,00 por dia (dependendo do trajeto) por um táxi que o levará até o parque, e depois para fazer o percurso lá por dentro. Então, se possível, o melhor é ir de carro mesmo.

Uma vez dentro dos limites do parque, a visita prossegue através de pequenas estradas de terra que cruzam o mesmo em direção aos principais pontos de visitação. Tudo é muito bem sinalizado através de umas plaquinhas amarelas em forma de seta, com os nomes dos locais que podem ser acessados. Além das guaritas, bem construídas e com boa infraestrutura para receber o visitante, existem centros de apoio com informações sobre o parque e alguns dos itens encontrados nele (como é o caso das garras dos tigres-dente-de-sabre).

Mas afinal, o que há para ver dentro do parque? Em primeiro lugar existem as chamadas "tocas", espécie de caverna a céu aberto, um tipo de abrigo na encosta de uma rocha imensa, protegida por um teto de pedra, e que servia de moradia não apenas para os homens primitivos mas também para famílias inteiras em tempos mais recentes, antes da fundação do parque. Nas paredes dessas rochas é que estão as famosas inscrições, de vários gêneros e com vários temas, e que nos contam um pouco da vida e dos hábitos do homem pré-histórico da região (há desde ilustrações de conflitos entre grupos de habitantes, imagens de caça, de animais e de pessoas, até cenas de sexo, inclusive coletivo, rituais diversos e, por incrível que pareça, uma cruz com pelo menos 6.000 anos de idade).

Além disso, há uma flora extremamente variada, formada pela vegetação típica da caatinga e também do cerrado, mas cuja predominância é de uma floresta tropical úmida, sem dúvida uma descoberta surpreendente. Árvores gigantescas convivem com arbustos rasteiros, o ambiente úmido fica ao lado do chão seco, a mata alta e fechada se alterna com a baixa, seca e aberta, cipós atravessam o caminho, lindas flores aparecem repentinamente no caminho, assim como diversas espécies de frutas, e você não se cansa de ver tanta beleza e variedade.

A visitação é feita, geralmente, indo-se de carro até um ponto de acesso próximo do local de interesse dentro do parque. Estratégicamente posicionados, esses pontos permitem a visitação dos locais sem a necessidade de longas ou difíceis caminhadas adicionais. Por isso, o parque não é feito apenas para os aventureiros, mas também para aqueles que querem apreciar a sua beleza e os seus atrativos sem dispender maiores esforços. Mas para os aventureiros não faltam opções. Existem várias trilhas, com graus variados de dificuldade, diversos tipos de terreno, subidas em encostas e tudo mais que confere prazer àqueles que tem o gene do Indiana Jones nos cromossomos.

A fauna também é muito rica e variada. Durante a visitação é comum se deparar com váras espécies de animais como, por exemplo: macacos-prego em cima das árvores, raposas andando pelas trilhas, beija-flores nos arbustos, uma espécie muito curiosa de lagartixa com as costas vermelhas (apenas a fêmea, e apenas naquele região, não há nada igual em nenhuma outra parte do mundo), sapos na beira da água, aranhas-caranguejeiras (do tamanho de uma mão aberta) nas encostas das rochas, papagaios já acostumados com a presença do homem, mocós (espécie de roedor que a ameça as pinturas rupestres com os seus dejetos deixados nas tocas), veados assustados saltando da trilha para a mata, furões cruzando os caminhos em alta velocidade, saguis que não recusam bananas, lagartos gigantes (teiús) indo de um lado para o outro, gaviões fazendo os seus vôos rasantes, lindas iguanas verdes no pé das árvores e até picapaus de cabeça vermelha em pleno serviço nos troncos das árvores. Consta que existem ainda cerca de 60 onças no perímetro do parque, mas essas não são avistadas tão facilmente.

Um espetáculo particularmente interessante é o ritual de recolhimento das super-andorinhas no final da tarde. Do alto de um desfiladeiro de grande beleza, dezenas dessas andorinhas fazem as suas acrobacias no céu durante o por do sol. E, enquanto o show acontece, pequenos grupos delas se destacam do grupo maior e fazem vôos rasantes em direção ao solo, onde farão o pernoite. O curioso é que esses vôos tem o som dos aviões de caça, o que torna a experiência de quem assiste ainda mais impressionante.

Em outros tempos havia ali uma fauna diferente, chamada pelos guias de "megafauna", e formada por animais que hoje habitam apenas as telas do cinema e a nossa imaginação: preguiças-gigantes de 8 metros e 5 toneladas, mastodontes e tigres-dente-de-sabre são alguns desses antigos habitantes que possuem partes expostas em museus, laboratórios e centros de visitação.

Para além das pinturas, da flora e da fauna, as formações geológicas do parque são uma atração à parte. Entre canyons, serras, chapadas, planícies, desfiladeiros, tocas e caldeirões, as opções são inúmeras e sempre surpreendentes. As visões panorâmicas são de uma beleza indescritível. Tudo isso requer, naturalmente, um pouco de preparo físico, pois são caminhadas, subidas e descidas, obstáculos variados, porém com resultado sempre altamente compensador. Em certos trechos o terreno é tão íngreme que não permite a escalada, e por isso foram instaladas escadas de marinheiro de metal para facilitar a passagem.

Para quem quer um pouco de emoção, não se deve deixar de subir (ou descer) os 16m de escada vertical na região da Pedra Furada, ao término do qual se obtém uma linda visão da região conhecida como Vale do Baixão da Pedra Furada, que aliás pode ainda ser avistada de forma panorâmica de outros três pontos diferentes. Mas para quem quiser emoção mais forte, há uma outra escada de 76m de altura que leva ao topo de um morro onde a vista é privilegiada e a sensação de estar mais perto do céu e dos criadores da natureza é marcante.

As tocas e os caldeirões (como são chamados os locais de acúmulo de água, e que são usados pelos animais para se refrescar em tempo de seca), são atrações à parte. Apesar de ter visto lindas tocas, a que mais me impressionou foi mesmo a mais famosa, a Toca do Boqueirão da Pedra Furada. Além da quantidade de pinturas (são mais de 1.000), o lugar se impõe pelas suas dimensões e proporções e impressiona de forma imediata. Sensação idêntica eu tive em outros dois caldeirões, que para mim não merecem outra denominação senão a de templos sagrados da natureza.

Se o Vale do Baixão da Pedra Furada é o local que atrai mais visitantes, existem pelo menos três outros circuitos que não devem deixar de ser visitados. São eles a Serra Branca (aberta para visitação do público há apenas 2 anos), a Serra Vermelha e o Desfiladeiro. Os dois primeiros são acessíveis pela PI-140, uma estrada bastante mal cuidada e que lembra, em certos trechos, as BR-235 e BR-324, que interligam Petrolina à São Raimundo Nonato. O terceiro é acessível pela própria BR-020, porém num ponto mais adiante da estrada.

Quando a visitação ao parque for feita pelos acessos da BR-020 (Pedra Furada e Desfiladeiro), deve-se preferir almoçar na Cerâmica Serra da Capivara, e não no Restaurante Trilha da Capivara. Lá a comida é mais variada e bem preparada. Na cerâmica (com 16 anos de atividade) são produzidas peças variadas, com reproduções das pinturas encontradas no parque. Ali é possível visitar a fábrica, adquirir peças numa pequena loja que funciona ao lado da fábrica e conversar com o Seu Nivaldo, lendária figura da região, pioneiro na localização das tocas do parque e primeiro guia do mesmo. Do alto dos seus 77 anos, o Seu Nilvado hoje trabalha produzindo peças de cerâmica (foi o primeiro funcionário da fábrica) e contando histórias da sua época de mateiro para os visitantes. Quando a visitação do parque acontecer pelos acessos da PI-140, a opção para almoço é a Churrascaria do Almeidão, local que fica na beira da estrada e que fica no meio do caminho entre o acesso para a Serra Branca e o acesso para a Serra Vermelha.

Com tantas atrações, o parque recebe apenas 15.000 visitantes por ano, cerca de 40 por dia. Muito pouco se comparado ao potencial turístico do mesmo, mas compreensível quando se leva em consideração as dificuldades de acesso (veja comentários em outra postagem). De qualquer forma, espera-se que, com a inauguração do aeroporto internacional de São Raimundo Nonato, essa situação mude e o parque entre definitivamente no roteiro do ecoturismo nacional.

Nada do que se vê, no entanto, seja no Parque Nacional Serra da Capivara, seja no Museu do Homem Americano, é obra do acaso. Ao contrário, é obra de pessoas que se dedicaram de forma incansável durante décadas com o objetivo de realizar um sonho. E, dessas pessoas, a mais importante é, sem dúvida, a Dra. Niède Guidon, pesquisadora francesa que, há muito tempo, foi contactada por um então prefeito de São Raimundo Nonato em São Paulo, que julgou oportuno expor as pinturas encontradas na região para alguém ligado à academia. O resultado foi a descoberta de um patrimônio, a sua delimitação, documentação e o início de um processo de investigação e turismo que ainda está muito longe de se esgotar, e que não para de surpreender aqueles que, como eu, tem a oportunidade de desfrutar de tão belo lugar e tão competente trabalho.

Dessa vez foram apenas quatro dias no parque e outro no museu, todos muito bem aproveitados. Mas quem quiser ficar por lá por uns 15 ou 30 dias não vai precisar voltar no mesmo local duas vezes e vai ter, com certeza, muito mais para contar na volta. Com relação às fotos, foram mais de 3.000 registros, mas ainda vai levar um bom tempo até todo esse material ser editado, tratado e publicado.

Não importa se como turista, cidadão do mundo, fotógrafo ou simplesmente um ser vivo, eu me senti um privilegiado por poder estar num local tão lindo e sagrado, e que expõe de maneira escancarada até que ponto pode chegar a grandeza disso que chamamos de natureza.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tourist Information 14 - São Raimundo Nonato


Provavelmente são dois os principais motivos que levam as pessoas à cidade de São Raimundo Nonato (PI), localizada a 300Km de Petrolina: ou elas moram em uma das 12 ou 13 pequenas cidades da região que dependem de São Raimundo Nonato para uma série de coisas (como banco, correio, insumos, serviços etc) ou então elas são turistas/pesquisadoras e estão indo para conhecer/estudar o Parque Nacional Serra da Capivara e usam São Raimundo Nonato como principal ponto de acesso e apoio ao visitante.

Com apenas 31.000 habitantes, é claro que não se trata de nenhuma metróple. No entanto a cidade apresenta um comércio vigoroso, possui uma grande feira que funciona três dias por semana e desempenha o papel de pólo econômico regional. Além disso, conta com um campus da UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco), onde são oferecidos os cursos de Arqueologia e Preservação Patrimonial (o primeiro no país) e de Licenciatura em Ciências da Natureza.

Outros elementos que diferenciam e destacam São Raimundo Nonato, não apenas no cenário regional mas também no nacional, são o Museu do Homem Americano, já citado em outra postagem, um aeroporto internacional que se encontra em fase final de construção e a Cerâmica Serra da Capivara, que produz artefatos com reproduções das pinturas rupestres encontradas no Parque Nacional e abastece, entre outras, lojas como a Tok&Stok.

Fora isso é uma cidade pacata, servida por um hotel e algumas poucas pousadas. Eu conheço várias cidades que não possuem nenhum semáforo, outras tantas que possuem inúmeros semáforos, mas São Raimundo Nonato é a primeira cidade que eu conheço que possui um único semáforo. Muito curioso, com certeza.

Para chegar lá, deve-se ir de avião até Petrolina ou Teresina. Se a opção for descer em Petrolina, será preciso fazer o sacrifício de viajar de carro por uma estrada de 300Km, em grande parte destruída (veja os comentários em outra postagem). Se a opção for chegar em Teresina, pode-se tomar a BR-020 e viajar os 550Km que separam as duas cidades sem nenhuma dificuldade especial.

Estando em São Raimundo Nonato, seja lá qual for o motivo, não deixe de visitar o Parque Nacional Serra da Capivara. Você nunca mais vai se esquecer do que você vai ver por lá, por mais breve que seja a visita.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tourist Information 13 - BR-235 e BR-324

Esses são os nomes das duas "estradas" que formam o "caminho" que liga Petrolina (PE) à São Raimundo Nonato (PI). A primeira vai de Petrolina até Remanso (BA). A segunda continua a viagem até o destino São Raimundo Nonato. Se você estiver pensando em fazer essa viagem, leia atentamente as informações abaixo e vá, pelo menos, sabendo o que você irá encontrar pela frente. Depois não diga que eu não avisei.

No total são 300Km, numa travessia, nessa ordem, pelos estados de Pernambuco, Bahia e Piauí. Cerca de 220Km estão na Bahia, 50Km ficam no Piauí e os outros 30Km estão em Pernambuco. No entanto, a segmentação que importa é outra: partindo de Petrolina, você percorre inicialmente 130Km de asfalto liso; depois disso, são 120Km de uma estrada totalmente destruída em que a viagem se torna um pesadelo profundo, e finalmente, chegam os últimos 50Km, que podem ser comparados a um pesadelo moderado (se não existissem os 120Km intermediários, esse trecho corresponderia, com certeza, ao pesadelo profundo).

Esse trecho de 120Km corresponde à 40% do percurso total, mas responde pela maior parte do tempo de viagem, cerca de 6 horas sem paradas. Nele, a paisagem é variada: há longos trechos em que vestígios arqueológicos do asfalto original se misturam de forma desordenada com terra, pedras, buracos, vegetação e muita poeira. Em outros trechos o asfalto sumiu completamente e o chão batido virou "a estrada".

A sinalização é inexistente, ou quase. Nesses 120Km, só me recordo de ter visto uma irônica e saudosista placa lembrando ao motorista que, se a estrada ainda estivesse lá, a velocidade máxima permitida seria de 60Km/h (placa esta, por sinal, que está enferrujada e cravada com balas), alguns metros de uma patética faixa amarela pintada em alguns pedaços de asfalto, uma placa escrita à mão "Vende-se gasolina" e uma outra, no mínimo curiosa, oferecendo bode assado ao lado do desenho de um coelho. Fora isso mais nada, nem mesmo um posto de gasolina, uma oficina ou qualquer outro ponto que pudesse servir de apoio para o motorista necessitado. A única salvação é a cidade de Remanso, que fica mais ou menos no meio desse trecho. De qualquer forma, ela pode estar a várias dezenas de quilometros do ponto onde você estiver precisando de ajuda.

Dirigir por esse caminho é uma experiência inesquecível, para você, o(s) seus(s) companheiro(s) de viagem e para o seu carro. Com uma velocidade média em todo esse trecho de cerca de 30-40Km/h, você vai estar o tempo todo indo do mínimo de ~10Km/h, onde os buracos são mais numeros e profundos, até o máximo de ~60Km/h, nos poucos trechos em que a estrada está totalmente destruída, ou seja, onde o asfalto já foi completamente eliminado e o chão de terra apresenta uma uniformidade que permite acelerar um pouco mais. Mas são raros os trechos com essa característica, por isso não adianta ficar animado.

Na maior parte do tempo você vai estar sacudindo para tudo quanto é lado, caindo e saindo de buracos, desviando de pedras, engolindo muita poeira, dirigindo em zigue-zague, freando repentinamente, andando pelo acostamento, dirigindo na contra-mão (inclusive pelo acostamento da contra-mão), ouvindo pancadas fortes debaixo do seu carro, levando sustos, falando palavrões (ainda que apenas para você mesmo), estimando as suas chances de chegar com o carro inteiro no destino e calculando o tamanho da conta que o mecânico vai te apresentar assim que você tiver a oportunidade de encontrar algum pela frente. É pura emoção, sem dúvida nenhuma.

Não bastasse isso, a estrada (o trecho completo, e não apenas os 120Km mais críticos) é povoada por animais de todos os tamanhos e espécies, que são absolutamente indiferentes à passagem dos veículos (bem poucos, diga-se de passagem) e usam a "estrada" como se fosse a casa deles. Na verdade, talvez seja mesmo. Ali, fui eu que me senti o animal na pista dos outros. Portanto, muita atenção aos bois, vacas, bezerros, cavalos, jegues, bodes, cabras, cachorros, aves variadas e até porcos, pois eles com certeza irão cruzar o seu caminho e caberá a você tomar as providências que poderão garantir uma convivência pacífica.

Quer mais? Consta que essa "estrada" já foi, em tempos não muito distantes, dominada por jagunços especializados em assaltar os carros que por ela trafegam. Viajar de noite, então, era praticamente certeza de viver mais essa experiência. Atualmente a coisa está melhor, mas mesmo assim convém se informar para saber se há mudanças. Os poucos vestígios de seres humanos no pior trecho ficam por conta das crianças que vendem umbú e mel em um ou outro ponto, e também de um ou outro homem morador da região que trabalha tapando buracos na estrada e, por isso, pede dinheiro aos motoristas que estão de passagem. Uma nobre atividade, mas que remete ao famoso "tampar o sol com a peneira". Fora isso, não é raro cruzar com um ou outro "pau-de-arara", como são conhecidos os caminhões e pick-ups que transportam pessoas como se fossem carga.

Vai encarar mesmo assim? Então vou te dar algumas sugestões para tornar a sua viagem menos estressante: (i) leve água, muita água no carro; (ii) se possível, vá num utilitário alto; (iii) janelas fechadas e ar-condicionado ligado ajudariam muito, tenho certeza; (iv) passe filtro solar nos braços e nas pernas; (v) não fique com o carro parado por muito tempo nos piores trechos, pois a temperatura do motor sobe rapidamente; (vi) pratique um pouco de meditação antes de começar a viagem; (vii) em Remanso, faça uma parada num local chamado "Prainha de Amaralina" e procure relaxar um pouco enquanto aprecia a vista da represa de Sobradinho, molha os pés na água e repõe as energias para encarar mais outro tanto; (viii) pensamento positivo sempre: lembre-se que, por pior que seja, aquilo tem um fim e talvez a recompensa pelo que você vai encontrar do outro lado supere com ampla folga as agruras dessa via crúcis.

Tire o dia para fazer a viagem. Por mais que você queria aproveitá-lo para fazer mais alguma coisa, vai faltar energia física e mental para tanto. E nem sonhe em ir de ônibus (sim, por incrível que pareça, essa é uma possibilidade). No carro você pelo menos está vendo e participando de tudo. Você pára quando quer e descansa quando precisa. De ônibus (eu já tive essa experiência) você vai apenas sacudindo por horas a fio, sem ter a menor noção do que se passa lá fora, e se sente um legume jogado dentro de um liquidificador. No carro você xinga o responsável pela manutenção da estrada. No ônibus você xinga o motorista que, é claro, não tem nada a ver com isso.

Ouvi dizer que esse trecho é considerado um dos piores do país. Será que existe alguma autoridade tomando providências em relação ao assunto? Existindo ou não, recorro ao Boris Casoy para sintetizar o sentimento de quem já desfrutou dessa experiência: "Isso é uma vergonha!". Com vergonha ou sem vergonha, quando chegar do outro lado peça uma cerveja estupidamente gelada, tome com gosto e diga para você mesmo: "Eu fiz por merecer!"