domingo, 17 de julho de 2011

Amigos??

Você acorda em Petrolina às 4:30hs da manhã. Pega um táxi para a rodoviária de Juazeiro às 5:00hs. O ônibus para Salvador parte às 5:35hs. Depois de oito horas de viagem, você chega no aeroporto daquela cidade e espera três horas até o seu avião partir para Belo Horizonte. Lá chegando, depois de uma hora e meia de vôo, você aguarda mais duas horas para a conexão que vai te levar até Campinas. Outra hora de vôo e chegamos ao destino. Hora de pegar o ônibus da companhia aérea, que sai dentro de 40 minutos, para te levar até o Tamboré, em São Paulo. São dez horas da noite e mais uma hora e quinze de viagem e tudo estará acabado. Hora de sentar e relaxar? Depois de 18 horas de viagem, cansado, sem comer direito e sem dormir, será que alguma coisa ainda poderia estragar o dia? Várias, com certeza. Mas poucas seriam tão trágicas quanto ter que assistir o DVD inteiro de Amigos (1995) em alto volume, dentro do ônibus, bem na frente do nariz. Ninguém merece, fala a verdade. Ponto negativo para a Azul.

Tourist Information 23 - Jacobina

Jacobina estava associada para mim, até então, apenas com o segundo nome de Nelson Jacobina, músico baiano famoso, compositor e parceiro de Jorge Mautner ("Maracatú Atômico" etc). Infelizmente eu não consegui descobrir, numa pesquisa na Internet, se ele é ou não filho ilustre da cidade de mesmo nome. Depois que eu me mudei para Petrolina, no entanto, eu comecei a ouvir boas referências sobre as cachoeiras e as trilhas da região que tem essa cidade como pólo principal. Foi apenas no começo desse mês, porém, que eu tive a oportunidade de ir até lá para conferir ao vivo e em cores a riqueza e a diversidade das suas belezas naturais. Como curioso a aventureiro que sou, me preparei de forma adequada, levei o equipamento fotográfico, me enchi de disposição e me coloquei em marcha para, durante quatro dias, explorar o ecoturismo na região. E devo dizer que foram quatro dias surpreendentes e memoráveis.

Jacobina fica distante 244Km de Petrolina, em direção ao sul da Bahia. A estrada asfaltada, que está em ótimas condições, alterna trechos federais e estaduais e passa por Senhor do Bonfim, Pindobaçú e Saúde, até chegar a Jacobina. Pouco mais de 100Km depois da saída de Petrolina, as mudanças são visíveis: o solo, a vegetação, o clima e a paisagem são completamente diferentes. Verde para todo lado, árvores altas, céu nublado, clima úmido, e vaquinhas pastando na encosta dos morros fazem o viajante se perguntar se já não teria percorrido algumas centenas de quilômetros ao invés de algumas poucas dezenas. Com cerca de 70.000 habitantes, Jacobina é uma cidade espalhada nas encostas de morros que formam um vale por onde passa um rio que atravessa a cidade. Ela aparenta ter uma economia dinâmica e possui vários locais de interesse turístico, como é o caso das praças, das igrejas históricas e dos casarões antigos e bem cuidados. De noite, a freqüência em bares e restaurantes deixa a cidade com ar cosmopolita. Há também o mirante, que fica no alto de um desses morros, cujo topo é alcançado após uma caminhada longa e cansativa, mas que é recompensada pela vista panorâmica da cidade e da região que se tem de lá de cima. Fazer essa subida me pareceu um bom treino para as trilhas que eu iria fazer nos dias seguintes, mas o fato é ela não seriviria nem como aquecimento para aquilo que estava esperando por mim e pelo meu filho nos próximos três dias. Jacobina possui vários hotéis e pousadas, mas o Hotel Serra do Ouro, localizado no topo de um dos morros da região, oferece boa infra-estrutura e uma linda vista de toda a região.

Os três dias seguintes foram dedicados para conhecer as trilhas e as cachoeiras do lugar. No primeiro dia, partimos a pé do hotel de manhã cedo e fizemos uma trilha que seguiu pelo meio do mato, dentro de um vale, e depois acompanhou o trajeto do rio do Ouro (Jacobina foi e ainda é rica em jazidas desse mineral). O caminho, conhecido como Trilha da Macaqueira (espécie de árvore cujos frutos são comidos pelos macacos da região), passa por uma mata fechada, uma barragem destruída, uma usina hidroelétrica desativada e prossegue numa espécie de canyon estreito e com boa profundidade. Caminhando em passos lentos, ora dentro ora fora d'água, enfrentamos todo tipo de dificuldade para avançar: paredes tiveram que ser escaladas, cordas foram usadas para vencer certas formações muito íngremes e até mesmo o nado foi empregado para vencer alguns trechos onde a dificuldade de seguir por terra era muito grande. Foram horas de caminhada e superação de obstáculos que não recomendo para ninguém que não esteja em excelente forma física: a força, o equilíbrio, a agilidade e o espírito de aventura são fundamentais para completar o percurso e poder usufruir de toda a beleza natural que o trajeto, que termina na cachoeira da Viúva, oferece apenas aos mais dispostos. Por isso tudo, confesso que não consigo lembrar dessa trilha sem deixar de associá-la com algum tipo de treinamento militar!

Ao final do trecho, já esgotados e praticamente no final do dia (além de tudo, ainda levei cerca de oito quilos só de equipamento fotográfico nas costas...), fomos levados para conhecer duas outras cachoeiras nas proximidades: a cachoeira dos Amores e a cachoeira do Brito, no vale de mesmo nome. São locais muito bonitos e que merecem ser visitados, assim como a trilha cheia de subidas e descidas que conduz à primeira. No entanto, recomendo que se evite fazer tudo num mesmo dia e que se reserve um segundo dia apenas para conhecer essas duas últimas cachoeiras, pois saímos da última já de noite e com muitos quilômetros a pé pela frente para retornar ao hotel. Por sorte, fomos presenteados com uma pickup, provavelmente enviada pelos nossos anjos da guarda para aquela estrada deserta, e que nos ofereceu carona na caçamba de volta para a cidade, poupando-nos pelo menos mais hora e meia de derradeira caminhada até os merecidos banho, comida e cama.

No segundo dia fomos conhecer o distrito de Itaitú, distante 28Km do centro de Jacobina. Para se chegar lá (de carro apenas), deve-se fazer o caminho de volta para Senhor do Bonfim e entrar à direita numa estrada de terra que se estende por vários quilômetros. Nela, apenas o guia saberá dizer onde dobrar, onde parar etc, pois não há, naturalmente, qualquer tipo de sinalização para se chegar aos pontos de interesse. Nesse lugar visita-se as cachoeiras do Piancó, Véu de Noiva, Araponga e da Pirâmide. São trilhas muito mais fáceis do que as do dia anterior, especialmente a do Véu de Noiva, que é visitada com freqüência por turistas que conseguem chegar de ônibus até bem perto.

O terceiro e último dia foi dedicado para conhecer duas atrações no município vizinho de Saúde, distante cerca de 40Km de Jacobina, também no sentido de Senhor do Bonfim (distante, portanto, cera de 200Km de Petrolina). A cachoeira do Paulista é um lugar aberto, de fácil acesso e excelente para se tomar banho com segurança. Infelizmente, nenhuma placa na rodovia indica a entrada para se chegar nessa cachoeira. Seguindo um pouco mais pela estrada de asfalto, também em direção à Senhor do Bonfim, fica o acesso para a cachoeira dos Payayás (nome de uma tribo indígena que habitava a região). O trecho de terra é difícil e possui vários quilômetros de extensão. Ônibus e similares não circulam por ali de jeito nenhum. Ao término do mesmo, o carro é deixado de lado e a viagem continua à pé, por cerca de uma hora. Caminhando por uma trilha linda, no meio de bambuzais, cajueiros e pés de babaçú, alterna-se subidas e descidas ao longo do rio dos Payayás, sobre cujo leito o reflexo do céu produz imagens de imensa beleza. Apesar da distância, a caminhada é tranquila e não apresenta nenhuma dificuldade especial.

Finalmente, a chegada na cachoeira dos Payayás representou, para mim, algo como a entrada no paraíso: creio que em apenas uma ou duas outras ocasiões na minha vida eu vi algo tão bonito e impressionante. O local é formado por uma lagoa linda, cercada de árvores e vegetação em ambos os lados e com um paredão alto de pedra ao fundo, por onde escorrem as águas dessa cachoeira divina. A perfeição da composição é de tirar o fôlego e ilustra, como poucas, o poder infinito que emana dessa coisa que chamamos de mãe natureza. O lugar é deserto, a água é pura e geladíssima (mas o banho é altamente revigorante) e os momentos em que se está por lá são de pura contemplação e admiração. Na hora de ir embora, não é fácil virar as costas para tamanho monumento da natureza. Fica apenas a vontade de reter aquelas imagens na memória com o maior número de detalhes possível, e de poder fazer um breve retorno.

Com mais de 180 cachoeiras listadas até o momento, Jacobina e Saúde são lugares que devem fazer parte do roteiro de todos aqueles que vem para ou estão em Petrolina, e que se interessam pelo ecoturismo. Para quem dispuser de quatro dias, como foi o meu caso, eu sugiro fazer o roteiro que eu fiz: o primeiro dia para chegar lá e conhecer a cidade, o segundo e o terceiro dias para conhecer a região fazendo essas ou outras trilhas, e o quarto dia para retornar para Petrolina, parando no caminho para conhecer a cachoeira do Paulista e a cachoeira dos Payayás. Para quem dispuser de apenas um final de semana, é possível ir até Saúde no sábado, dormir por lá, e conhecer essas duas cachoeiras no domingo, antes do retorno. Ou então, pernoitar em Jacobina e fazer algum roteiro por lá mesmo, mas nesse caso a volta vai ficar um pouco mais puxada. De qualquer forma, a distância é pequena para a recompensa que o passeio oferece.

Se Jacobina, por estar situada na entrada da Chapada Diamantina, era para mim até então apenas uma promessa de algo que lembraria vagamente as maravilhas já conhecidas daquele lugar mais famoso, eu devo dizer que a região surpreendeu e as suas atrações se equiparam, no mínimo, às melhores trilhas e cachoeiras encontradas em locais mais frequentados como Lençóis, Capão, Andaraí etc.

Para quem tiver interesse eu sugiro contratar o guia Alex Silva. Ele nos atendeu de forma exemplar, nos conduziu com segurança o tempo todo, não poupou esforços para nos deixar maravilhados dia após dia, e nos deixou com vontade de quero mais. Os seus telefones são (74) 3621.6872, 9964.2730, 9115.6080, 8105.8031 e 8819.5227 (você não vai deixar de falar com ele por falta de números de telefone). Outros guias e agências de turismo são facilmente encontrados na cidade e nos principais hotéis. Se você leu até esse ponto, certamente vai querer clicar aqui para conhecer um pouco mais dessas maravilhas através de algumas fotos que eu selecionei rapidamente dessa minha viagem. Mas não deixe a preguiça tomar conta e ficar tudo por isso mesmo: comece logo a programar o seu próprio passeio, pois não há nada que substitua o contato direto com as melhores criações da natureza!