sábado, 28 de novembro de 2009

Matingueiros

O nordeste tem uma longa e rica tradição musical, não há qualquer dúvida em relação a isso. São tantos e tão variados ritmos, muitos deles transformados em culturas com identidade própria (como é o caso do frevo, maracatú, caboclinhos e ciranda, apenas para citar alguns), que a música criada e desenvolvida no nordeste não pára nunca de ser decoberta, redescoberta, interpretada, pesquisada e documentada, com influências evidentes e cada vez maiores na cultura musical e nas manifestações artísticas do restante do Brasil e também do exterior.

No dia 14/11, sábado, eu tive a oportunidade de fazer uma descoberta dupla. Fui a um lugar novo, o Quintal do Poeta (em Juazeiro), assitir um show do grupo Matingueiros, do qual eu nunca tinha ouvido falar, a não ser pela curiosidade de ter visto um ou outro CD exposto numa ou outra loja de Petrolina.

Num quintal de uma casa onde um pequeno palco foi erguido a céu aberto, e um simpático barzinho servia bebidas para os presentes que se acomodavam nas mesas dispostas em frente ao palco, eu contei doze pessoas aguardando pelo início do show quando já passava uma hora do horário marcado para o seu início.

Apesar do pequeno público presente (fato esse que foge completamente da minha compreensão), o show foi realizado e, para minha sorte, eu pude usufruir, por cerca de uma hora e meia, de uma música vibrante, bem elaborada e construída sobre a mais nobre tradição musical nordestina com grande competência (além dos gêneros já citados, também o forró, o xote e vários outros).

Com muita percussão, sopros e eletrônicos, o Matingueiros (nome dado para aquele que vive no mato) é um grupo formado por sete músicos que estão na estrada há cerca de 10 anos e, juntamente com Geraldo Azevedo, representam o que de melhor Petrolina produziu como contribuição para a cultura musical nordestina e brasileira.

Nessa semana, no dia 26/11, eu tive nova oportunidade de assisti-los, dessa vez na própria UNIVASF, durante a cerimônia de inauguração do Complexo Multieventos e de comemoração dos 5 anos de funcionamento da universidade. Foram apenas quatro músicas, mas foi o suficiente para animar e elevar o espírito da platéia. Com o apoio de um competente grupo de dança folclórica, o espetáculo ficou completo.

Diferentemente do Gerado Azevedo, no entanto, parece que o Matingueiros ainda não é suficientemente conhecido no restante do Brasil, apesar de já ter produzido vários CDs e de já ter se apresentado até na China, de onde o líder e vocalista trouxe inspiração para a criação de novos instrumentos musicais. Talvez isso ocorra justamente pela força que a música regional tem no seu repertório, o que, de qualquer forma, deveria ser considerado como mérito e não o contrário.

Toda essa tradição e esses expoentes, no entanto, constrastam com o reducionismo da seleção musical que se percebe nesse interior. Tudo isso, e muito mais (como por exemplo a música popular brasileira, antiga e recente, a música instrumental, brasileira ou não, o jazz, o blues, o pop, o rock, brasileiro ou não, clássico ou não, a música acústica, a música erudita etc) é praticamente ignorado pelos programadores musicais e, pior, pelos próprios consumidores finais, que parecem enxergar na sua frente apenas dois "gêneros musicais": o forró e o pagode.

E aqui não me refiro ao legítimo e delicioso forró que encanta gerações há décadas e que possui Luiz Gonzaga como seu maior representante, mas ao pseudo-forró moderno, que tem as suas raízes na qualidade musical inferior, nas letras de mau gosto, nas coreografias ridículas, na megaproduções, na ganância e na falta de respeito pela inteligência e sensibilidade do ouvinte/espectador.

Com exceções, como por exemplo nesse show do Matingueiros que eu assisti no Quintal do Poeta, na maioria dos lugares onde se vá por aqui, ou pelo menos nos lugares onde existe público consumidor, só se ouve o tal do pseudo-forró e do pagode. Mesmo que não se vá para lugar nenhum, ouve-se da mesma forma, querendo ou não. Na TV, no rádio, nos clubes, nos shows ao ar livre, nos bares e restaurantes com música eletrônica ou ao vivo, nos vendedores de mídia pirateada da rua, é quase a única coisa que se vê e ouve por aqui. Está impregnado no ar. É praticamente uma unanimidade musical entre crianças, jovens e adultos, homens e mulheres, solteiros e casados, de dia e de noite, enfim. É como se mais nada existisse, como se mais nada importasse, e ainda não consigo me acostumar com isso.

O curioso é que esse fenômemo acontece no interior, não no litoral. Não posso falar por todo o interior, é claro, pois ainda conheço apenas uma pequena parte dele. Por outro lado o Recife é um pólo multicultural por excelência. Lá se ouve de tudo o tempo todo, as opções não param de aparecer, o publico é senhor do seu destino e desenvolve a sua bagagem cultural com total arbítrio. Em Salvador não deve ser muito diferente. Claro que eles também tem o pseudo-forró e o pagode, mas eles não asfixiam ninguém, a menos que seja por opção da própria vítima.

Segundo eu soube, o Mantigueiros teria, de certo forma, sido "adotado" pela Fundarpe, a Fundação do Patrimônio Artístico de Pernambuco, e agora dispõe de perspectivas mais concretas para consolidar uma trajetória que até então só existiu por causa da persistência de uns poucos abnegados. Que assim seja.

Um comentário:

matingueiros disse...

Numa platéia tão grande quanto aquela ficou fácil lembrar de você. Que bom que nossa arte te agradou. O sentimento quanto à "vida cultural" da cidade é o mesmo e a revolta de ser obrigado a ouvir "forró aputanhado de turismo rebolador" nos bares e nos carros que passam nas ruas. Enfim... obrigado pela postagem !! Faça uma visita no nosso blog: matingueiros1.blogspot.com ; no blog da nossa ONG maracatumatingueiros.blogspot.com ou uma visita em pessoa na nossa sede que fica na Petrolina antiga... A propósito... temos um cine clube aos sábados com entrada simbólica de R$1,00 ... e se você quiser mergulhar mais fundo na cultura pernambucana é só nos procurar... arquivos não faltam ... valeu Matingueiro !!!!

wagner