terça-feira, 23 de setembro de 2008

Villa-Lobos em Petrolina

Show com Marcus Llerena (violão) e Rosenete Eberhardt (soprano) no projeto Sonora Brasil do Sesc. Estudos, prelúdios, modinhas, serestas e outras obras para violão solo e violão e voz do grande Heitor.

Foi um verdadeiro colírio nos olhos do viajante que, há meses, vagueia por um deserto musical absolutamente árido de sons que possam ser apreciados e frequentemente se vê atingido por violentas tempestades de areia que ofuscam a visão e contribuem para deteriorar os sentidos. O verdadeiro antídoto das "pererecas".

Um grande compositor, uma ótima programação e excelentes intérpretes. Nada mau para uma simples noite de terça-feira no sertão do meu Brasil. Com entrada gratuita, ainda por cima.

Mas o sertão precisa ser preparar melhor para esse tipo de evento. Logo no início do espetáculo, os aparelhos de ar-condicionado do auditório do Sesc foram desligados a pedido dos músicos, uma vez que o ruído produzido por eles (os aparelhos) concorria de forma severa com as suas próprias execuções.

Como resultado o calor foi grande, especialmente para os músicos, que ainda tiveram que tocar debaixo de luzes fortes e quentes. O meu xará, por exemplo, suava em bicas e saiu do palco com a camisa encharcada.

Para atrapalhar ainda mais, os sons vindos da rua se faziam vez ou outra presentes no palco (carros de som, ruídos das pessoas, barulhos do trânsito etc) e competiam com a música do Villa. Numa quadra de esportes ao lado do auditório, os gritos dos atletas que disputavam alguma partida soavam ainda mais alto dentro do auditório, e criavam um fundo musical paralelo que permeou todo o espetáculo.

Na platéia, naturalmente, os celulares que tocavam sem aviso prévio não deixaram de marcar a sua presença em pontos diferentes do programa. E, no palco, vez ou outra aparecia alguém, sabe-se lá de onde, que o atravessava de forma indiferente e distraída, enquanto os músicos tocavam, procurando abstrair e se sobrepor a esse universo de interferências externas. Falar sobre os aplausos em momentos inoportunos é desnecessário e poderia parecer um exagero da minha parte.

A gente que está acostumado a ver artistas se apresentando apenas nos grandes centros, não imagina a vida que eles levam quando resolvem se aventurar por esse Brasil afora. Não é fácil, isso ficou evidente, e tal fato só pode ser explicado pelo amor que eles tem pela arte e pela sua devoção ao trabalho de redução das desigualdades regionais que ainda são tão marcantes nesse nosso país.

Por sorte temos artistas sofisticados que encaram todas essas adversidades (e possivelmente outras mais) de forma tranquila e corajosa, e ainda assim aparecem por aqui de vezes em quando para nos brindar com momentos mágicos como os da noite de hoje. Obrigado ao Marcus, à Rosenete e ao Sesc.

Um comentário:

Anônimo disse...

Marcus, nem tudo é perfeito, apesar dos pesares, como disse o outro "o importante é que a emoção sobreviva" e pelo visto não faltou emoção no recital. Pensa bem, Villa-Lobos em recital em pleno sertão brasileiro, era tudo o que o Heitor queria, para quem sempre procurou se inspirar nas tradições e culturas do povo, ver sua música tocada nos rincões do País, ele deve estar contentíssimo lá em cima e quanto as interferências externas, como ele próprio disse a Tom Jobim, "o que vale é o que o seu ouvido interno escuta". Você só não falou da platéia, fiquei curioso em saber se a frequência de um recital deste tinha sido grande?.
Aproveitei e dei uma atualizada no seu blog, fazia tempo que não lia e confesso que sua escrita esá mais leve e solta, você tem até apontada coisas boas em Jualina? isto é uma evolução.
Concordo que o nosso passeio a Sobradinho (que maravilha), Ilha do Rodeadouro (Polinésia Sertaneja) e terminando no Maria Bonita foi agradabilíssimo, certamente valeu a pena descobrir as belezas do sertão Brasileiro, o Brasil que o Brasil não conhece e não sabe o que está perdendo.
Quem não comeu uma piranha na Ilha do Rodeadouro, está perdendo um dos prazeres da vida.
Abraços
Robson